sábado, 13 de agosto de 2011

Vida de Doutor: Os "Lamarcks" Assalariados

Doutores são pessoas com treinamento para pesquisa científica, tecnologia, arte e humanidades. É necessário desenvolver uma tese, um conjunto de hipóteses que desafiem o conhecimento, ora modificando-o, ora aprimorando-o para um nível mais próximo da realidade possível. Um doutor faz tudo, menos deixar as “verdades dogmáticas em paz”. É ser um iconoclasta por natureza! A frase que mais ouvi e até falei: “esse problema aqui será antes e depois de mim, assim que eu publicar esse artigo”!
Nesse modus operandi de ser e agir, três coisas precisamos entender: (1) o que é ciência, (2) a aristocracia e o ócio criativo, (3) prestação de serviço através do trabalho assalariado.

(1) Ciência
Nosso mundo da revolução industrial é, em grande parte, baseado na ciência, pelo menos nos princípios mais gerais. O método científico com proposição de hipóteses falseáveis (sensu Karl Popper) impôs uma regra simples: toda afirmação tem que ser provada, fisicamente falando. As áreas da Física, Química e Biologia e seus derivados só funcionam assim hoje. Por exemplo, um médico como um bom investigador científico deve entender e propor soluções através de evidências que ele e por exames específicos. É inconcebível alguém entrar em um consultório e ouvir: “eu SINTO que você está com câncer.” Um médico tem que ter mais do que seu instinto, ele deve analisar os resultados e avaliar tudo mediante um conhecimento prévio. Se você entendeu sabe mais enfim porque essa postura está hoje amplamente presente em nossas vidas. Advogados, políticos, jornalistas, policiais, bombeiros, a lista é muito grande! Todos devem usar métodos de coleta de dados, métodos de análise e padronização na apresentação de seus resultados e discussão.

Costumo falar para meus alunos e mais próximos “se você não conhece ciência, saiba que são apenas 34 páginas de leitura na Wikipédia [clique]”.

Os cursos de doutorado são justamente a capacitação em ciência no amplo sentido. Um doutor é um investigador, alguém que levanta hipóteses, questiona e modifica o conhecimento estabelecido através do emprego do método científico.

(2) Aristocracia e o Ócio Criativo
Ok! Mas de onde vem essa postura? Como surgiu a ciência? Vamos a uma situação hipotética: imagine que todos os seus desejos materiais estivessem saciados. Imagine uma situação onde dinheiro não é problema. Quando humanos não estão na labuta, ora procurando alimento, ora cultivando, ou até guerreando, eles não ficam estáticos, vazios, sem nada a fazer. Os humanos possuem uma característica intrínseca: em seu ócio, eles questionam o que é verdade, ou não!
Humanos sempre perguntam sobre a realidade. As conhecidas perguntas: “o que nós somos?” “De onde viemos?”, “Qual o sentido da vida?”

Todo grupo humano possui uma mitologia, uma história própria de sua tribo que lhe dá sentido para existência. O advento da agricultura, apesar de seus aspectos negativos (acúmulo de excedente, aumento da discriminação de gênero, formação de exércitos, etc.), trouxe uma ampliação do ócio para alguns e, no berço da civilização humana, o ócio ampliado em questionamentos e o Ócio Criativo.

Antes de Galileu Galilei, Francis Bacon, Karl Popper e tantos outros, a Grécia Antiga é apontada como o local de origem do conhecimento ocidental. Você já ouviu pelo menos um de seus professores falar que um determinado filósofo grego é “pai” disso, o outro é o pai “daquilo”. O importante aqui é você entender que a busca pelo conhecimento, antiga e moderna, foi realizada pela aristocracia. Calma! Eu não estou defendendo elitização, ok?! Apenas quero que você entenda que a busca pelo conhecimento não está vinculada a ganhar coisas matérias. Ciência e dinheiro podem se encontrar na aplicabilidade, na tecnologia, mas, não estão unidos na origem. É verdade que o conhecimento trás o poder, mas isso não quer dizer todo conhecimento resulta em dominação de massas, bomba atômica, etc. A busca está vinculada a responder com mais precisão as perguntas clássicas já listadas aqui: “o que nós somos?” “De onde viemos?”, “Qual o sentido da vida?”

Após a revolução da agricultura, apenas quem tinha certa liberdade de bens materias e muito ócio foi capaz de desenvolver a filosofia e depois as ciências modernas.

Sim, a ciência nasce entre aristocratas e só com o advento dos serviços assalariados que isso irá mudar um pouco.

Isso serve como um alerta as mentes jovens nas universidades. Primeiro é reconhecer que estamos procurando duas coisas que nem sempre andam juntas: (A) trabalhar com ciência e (B) ganhar dinheiro.

(A) Ser cientista por si só é investigar certos aspectos da realidade, repetindo para fixar: isso não tem nada haver com produzir um bem, ganhar dinheiro.

(B) Para ser cientista é preciso prestar serviço, como dar aulas e capacitar pessoas profissionalmente.

Existem patentes de medicamentos, novas tecnologias da engenharia e meios de informação, etc. que podem transformar pessoas comuns em milionárias. Entretanto, a maioria dos cientistas não possui essa motivação. A maioria está cada um do seu modo, trabalhando, direta, ou indiretamente nas questões clássicas da existência humana. Como filósofos gregos, estamos ali em pé questionando “o que nós somos?” “De onde viemos?”, “Qual o sentido da vida?”

(3) A Ciência Assalariada
Darwin estava um tanto agitado quanto a encontrar algum bom fóssil na América do Sul. Ficou sabendo, para o seu desgosto, que o colecionador francês Alcide d’Orbigny estivera trabalhando na área por seis meses, obtendo espécimes excelentes para o Museu de Paris. Isso era irritante; Darwin financiara seu próprio caminho até ali apenas para descobrir o governo francês patrocinando seu homem, permitindo ele percorrer os pampas por seis anos com passagem gratuita. Esse fato evidenciava a séria atitude francesa em relação à ciência” (Desmond e Moore, 2001: 145).

Esse foi o meu primeiro contato com relato que li de financiamento público para ciência. Eu não sou especialista em história da ciência assalariada, mas sei que a França foi um dos primeiros, senão o primeiro país a financiar a ciência e pagar salário para cientistas. Lamarck é um exemplo disso, após ingressar no Museu de História Natural de Paris viveu sua vida do salário que recebia: “Lamarck – fifty years old; married for the second time, wife enceinte; six children; professor of zoölogy, of insects, of worms, and microscopic animals. His salary, like that of the professors, was put at 2,868 livres, 6 sous, 8 deniers” (Packard, 2008:28).

A França foi e é um país revolucionário!

Eis nossos dois exemplos de cientistas: Lamarck e Darwin. O primeiro assalariado morreu cego, pobre e só não passou fome, porque sua filha mais velha conseguiu uma remuneração no herbário para ajudar a família: “It was a natural and becoming thing for the Assembly of Professors of the Museum, in view of the ‘malheureuse position de la famille’ to vote to give her [Mlle] employment in the botanical laboratory in arranging and pasting the dried plants, with salary of 1,000 francs” (Packard, 2008: 39). Já Darwin nunca precisou depender de salário algum! Viveu muito bem dos proventos de sua família e da sua esposa (a prima também rica).
Ambos são grandes nomes que contribuíram para conhecimento humano. Por mais importantes que tenham sido suas obras, materialmente, suas vidas não foram alteradas por elas. Lamarck pobre foi, pobre continuou!

E a venda dos livros de Darwin? Bem, ele já tinha uma mansão antes de publicá-los, quer que eu escreva mais sobre isso?

As idéias publicadas em artigos e livros podem mudar o mundo e se amplamente aceitos trazem status e fama aos seus autores. Entretanto, não está implícito fazer fortuna com isso.

A grande maioria de meus alunos chega à universidade pensando em conseguir um ótimo emprego. Muitos falam para mim assim: “eu quero ser pesquisador, trabalhar em um laboratório, nem de longe serei professor”.

Agora vamos às más notícias, se querem realmente ser pesquisadores a probabilidade de se tornarem professores é de quase 100%. Na Grécia Antiga há um intrínseco relacionamento entre produzir conhecimento e ensino, tanto que muitos filósofos criaram escolas onde ensinavam seus pupilos, como o Liceu de Aristóteles.

A necessidade de criar e ampliar profissões, a leitura da bíblia e depois a revolução industrial intensificou o aumento do número de escolas.

Ressalto que sempre que a ciência pura, à busca pelo conhecimento puro, manteve-se elitizada na maioria dos vultos ocidentais. Ainda hoje é muito difícil para um filho de um pedreiro conseguir tempo para trabalhar e estudar. Os cursos para formar pesquisadores são quase sempre diurnos e de regime integral. Os cursos noturnos foram delegados para as licenciaturas.

Não é a toa que o Brasil ainda é esse atraso só, não é verdade?!

Após o vestibular, se você conseguir “tirar direto” sem parar, levará aproximadamente dez anos para conseguir um título de doutor: quatro de graduação, dois de mestrado e quatro de doutorado. Isso varia um pouco dependendo do tempo da graduação, ou mesmo, em alguns casos muito especiais, quando se consegue ir direto ao doutorado, sem passar pelo mestrado, ou, em alguns programas de pós-graduação, com apenas um ano deste. Muitos não param, complementam, ou fazem atualizações profissionais realizando estágios pós-doutorais de curta (seis meses) ou longa duração (um a dois anos). Não é título, mas pegou moda nos corredores hoje falar em professor “pós-doc”.
Bem, para ser doutor é uma década de sua vida só dedicada ao estudo! E uma década é quase uma eternidade existencial! Isso significa mais dificuldade ainda para as pessoas que não podem ficar sem trabalhar, ou aquelas que não conseguirem bolsas de estudo durante sua permanência nas universidades.

Após tudo isso, as universidades públicas e os poucos institutos públicos de pesquisa no Brasil são as melhores opções de emprego. As universidades e faculdades privadas o regime de trabalho é voltado quase que exclusivamente para aulas de graduação... Os salários são inferiores ao do setor público e, o menos atrativo, não há estabilidade e planos de carreira.

Qual o salário de um doutor hoje no Brasil? É só consultar os editais dos últimos concursos disponíveis na internet. Vejamos o recente concurso para professor adjunto (doutor) realizado para a Universidade Federal de Campina Grande – UFCG/ Campus Cajazeiras-PB [clique para ver o edital completo]:


O salário apresentado na Tabela é bruto, isto é, sem os descontos dos impostos da previdência e de renda. Esses descontos juntos diminuem hoje cerca de R$ 2.000,00. O salário de um professor doutor também irá variar para mais ou menos nas universidades estaduais, porque elas possuem seus próprios planos de cargos e carreiras independentes das universidades federais.

Em nosso exemplo, um “professor doutor” iniciante em uma universidade federal, com os descontos, seu salário líquido no bolso é pela definição da Fundação Getúlio Vargas pertencente a Classe C (entre R$ 1.610,00 até 6.941,00)!!!

Ok! Não existe um professor doutor com um salário mínimo e toda vez que falamos de nossos salários há dois extremos de reação. O primeiro gosta de mostrar notícias assim:

“[Na América Latina] 100 milhões de pessoas não tem dinheiro sequer para adquirir uma cesta básica.” [clique]

Mais de 1,5 milhões de pessoas vivem em extrema pobreza no Ceará.” [clique]

Complementam esse quadro falando das condições dos professores públicos do ensino fundamental e médio, os quais são nossos irmãos de profissão, companheiros no trabalho de formação dos “doutores do amanhã”. A remuneração deles, mesmo com algumas melhorias do piso nacional recém-conquistada à luta, ainda é muito baixa.

Esse primeiro conjunto de discurso é daqueles que dizem que “reclamamos de barriga cheia” em um país pobre.

Aí vem as outras vozes no extremo oposto: “ganhamos muito mal pela qualificação que temos”. Quando fazem isso, sempre comparam salários de profissionais como médicos, juízes e cargos políticos, muitos apenas com graduação e os últimos (os políticos) podem ser até semi-analfabetos.

Não gosto de nenhum dos extremos, os que clamam que estamos muito bem e de barriga cheia, ou os que estamos muito mal. Para mim, estamos no meio disso tudo! Somos apenas brasileiros comuns com salários medianos. Fazemos parte da classe média deste país. Uma classe que beira à falência todos os dias devido ao número de contas para pagar e empréstimos nos bancos.

Ter um salário de classe média não é lá um orgulho, é para “escapar” todos os meses. Lembram-se das palavras do Frei Betto [clique]: "R$ 4.807 [na época] não é salário de dar tranquilidade financeira a ninguém. O aluguel de um apartamento de dois quartos na capital paulista consome metade desse valor.”

A vida de um doutor começa assim, muitos sonhos de amor pela ciência e a labuta no dia a dia. Tentamos fazer trabalhos revolucionários como Charles Darwin, mas vivemos no aperto e estresse como Lamarck. Não somos ricos e escolhemos uma profissão que não nos tornará assim.

Somos professores... assalariados iguais a Lamarck!



PS: Não perca no próximo post a carreira e o status na Vida de Doutor!

Referências
Desmond, A. e Moore, J., 2001. Darwin: a vida de um evolucionista atormentado. 4 ed. Geração Editorial.
Packard, AS., 2008. Lamarck, The founder of evolution his life and work. Wildhern Press.

sábado, 30 de julho de 2011

Vida de Doutor: Apresentação

Diálogo do filme “A Família Savage” (The Savages, 2005):

Pai: “Então faça alguma coisa! Você é doutor!”

Filho: “Eu vou chamar alguém.”

Filha: “Está bem.”

Filha: “Ele não é doutor, pai. Ele é professor.”

Pai: “Pensei que meu filho fosse doutor.”

Filha: “Ele tem doutorado em Filosofia, PhD. Dá aula em faculdade.”

Pai: “Medicina?”

Filha: “Não. Drama. Ele dá aula de Teatro.”

Pai: “Como na Broadway?”

Filha: ”Não. Como... Teatro de conflito social. Coisas assim. Ele está escrevendo um livro sobre Bertolt Brecht.”

Assim como o personagem Jon Savage, eu também sou doutor e não foi diferente em minha casa com meus pais.

Eu sou doutor, um verdadeiro doutor. Desenvolvi e defendi uma tese que me valeu o título de Doutor em Ciências Biológicas (Zoologia) pela UFPB. Tenho outros adjetivos profissionais: biólogo, zoólogo, evolucionista, sistemata filogenético, parasitólogo, etc. Entretanto, para o mundo inteiro eu sou simplesmente... Professor.

Muitos de meus companheiros de trabalho tentam ainda adjetivar o próprio adjetivo de sua profissão, falam de professor pesquisador, professor universitário e professor doutor [rsrs] e por aí vai.

Não há uma identidade social-econômica, racial, ou gênero. Somos uma colcha de retalhos, de todas as cores, com pessoas vindas de todas as classes e de todos os gêneros. Entretanto, existem várias coisas que nos identificam, por exemplo, amor pela ciência (na maioria das vezes) e um discurso cheio de retórica e palavras específicas que para uma pessoa comum frequentemente são incompreensíveis.

Além disso, cito ainda (1) nossa carreira profissional (do salário ao status, mesmo que desmedido e falso); (2) os mitos que as pessoas possuem de quem completa sua educação com um curso de doutorado também são comuns a todos nós. Esses mitos e clichês são tão fortes e freqüentes que vez por outra, encontra-se um professor mergulhado em algo assim... Escrevo com ênfase: dá é pena de ver! Entre esses poucos, há quem se vista para além de uma passarela futurista, dessas que a gente vê na TV e pergunta para si “alguém vestiria isso no dia a dia?” Falam uma verborréia daquelas, vivem inventando um monte de problemas longe de qualquer vínculo com a realidade. Parecem verdadeiros ricos, mas logo estão ali dentro de seus carros populares indo para os subúrbios de todos os brasileiros...

Eu sonhei e desejei muito ser o que sou. Admirei muitos de meus professores na universidade e queria estar em um lugar igual ao deles... Consegui! Ah! É outro aspecto característico dos “doutores” de verdade, parecemos “astros do rock’n’roll” com muitos fãs, seguidores e inimigos. Tenho cada um disso em mim mesmo, da admiração, do fã até a inimizade declarada.

No meu sonho, nos tempos de aluno, eu tinha curiosidade de saber o dia a dia dos “doutores”. O que eles conversam nos cafezinhos, nas reuniões fechadas, naquela hora que pedem após a defesa da tese: “saiam todos, a banca irá agora avaliar em privacidade o candidato”.

Nos textos que virão irei tentar destrinchar em detalhes como é a carreira de um “doutor” no Brasil (e alguns aspectos globais, comuns a todos, vide o diálogo da família Savage). Como surgiu nossa profissão, os nossos salários, o amor pela ciência, o dia a dia, as aulas intermináveis (graduação e pós-graduação), reuniões (quase toda a semana), orientações de alunos, pressão para publicarmos, necessidade de fazer projetos e a difícil tarefa de fingir ser normal quando se vai a um supermercado fazer compras!

O que vem por aí é muito legal e tem realmente muito de “The Big Bang Theory” , mas tudo verdade, tudo realidade. Um exemplo:

Tarde de uma terça feira em Juazeiro do Norte – CE. Eu ando rápido pelas calçadas, o sol está matando, mas eu preciso chegar ao banco pegar uma grana. No Sebo encontrei um monte de HQs da década de 1980. Eu olho para os lados e vejo os amigos que me acompanham, um é doutor pela UNESP, outro é pela UFSCar e tem pós-doc na USP com estágio no Smithsonian Institution (EUA)... Eu não resisto e falo:

“Ninguém acreditaria nessa cena, dois doutores empenhados em comprar ‘gibis’ e outro dando a maior força. O que as pessoas devem imaginar de nós três? Personagens sisudos vestidos de jaleco em um laboratório?!... E eis que aqui estamos de bermudas com edições de Superaventuras Marvel nas mãos!”.

“É meio estranho, singular e até engraçado”.

“Eu vou escrever sobre isso! Eu vou escrever sobre a nossa realidade, nossa “Vida de Doutor”!

domingo, 24 de julho de 2011

Trailer do Projeto Nim (2011)

Antes de voltar com novos textos, segue o trailer de um documentário que eu recomendo:

sexta-feira, 4 de março de 2011

Um poema para o Macaco Ômega de todos nós


      TABACARIA

    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

    Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

    Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa.
    Fui até ao campo com grandes propósitos.
    Mas lá encontrei só ervas e árvores,
    E quando havia gente era igual à outra.
    Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
    Gênio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
    Não, nem em mim...
    Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
    Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
    Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
    Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
    E quem sabe se realizáveis,
    Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
    O mundo é para quem nasce para o conquistar
    E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
    Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
    Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
    Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
    Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
    Ainda que não more nela;
    Serei sempre o que não nasceu para isso;
    Serei sempre só o que tinha qualidades;
    Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
    E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
    E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
    Crer em mim? Não, nem em nada.
    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
    O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
    Escravos cardíacos das estrelas,
    Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordamos e ele é opaco,
    Levantamo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

    (Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

    Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
    A caligrafia rápida destes versos,
    Pórtico partido para o Impossível.
    Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
    Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
    A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
    E fico em casa sem camisa.

    (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
    Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
    Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
    Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
    Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
    Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
    Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
    Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
    Meu coração é um balde despejado.
    Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
    A mim mesmo e não encontro nada.
    Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
    Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
    Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
    Vejo os cães que também existem,
    E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
    E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

    Vivi, estudei, amei e até cri,
    E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
    Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
    E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
    (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
    Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
    E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

    Fiz de mim o que não soube
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.
    Quando a tirei e me vi ao espelho,
    Já tinha envelhecido.
    Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
    Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
    Como um cão tolerado pela gerência
    Por ser inofensivo
    E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

    Essência musical dos meus versos inúteis,
    Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
    E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
    Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
    Como um tapete em que um bêbado tropeça
    Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
    E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
    Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
    E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
    E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,
    A libertação de todas as especulações
    E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.
    Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
    (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

    Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), 15-1-1928

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Meus amigos da "Classe Média"


Olá pessoal,

Há muito que penso em escrever sobre coisas assim, meio fúteis, meio corriqueiras... Cá do final da fila, entre os milhões de macacos ômegas.

Enquanto minha filha chora na sala por causa da gripe, seguem as coisas que não deixo de pensar ultimamente:

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Meus amigos atuais são todos da "Classe Média". Quando sento com eles nos bares olho de um lado tem um doutor em Química, olho do outro há um doutor em Biologia. Conforme olha-se para todos os lados a lista de doutores segue (Física, História, Economia, Engenharia, Bioquímica, Farmacologia, etc.). Muitos casados, alguns separados e nós todos temos filhos. Compõe uma média de idade que está agora se aproximando dos 40 anos, ou um pouquinho adiante disso. Todos pagam, ou pagavam aluguel, moram em bairros que não são da periferia, alguns financiaram casa, apto, e/ou terrenos. O carro mais caro entre nós não chega a custar R$ 60.000,00 (preço de um automóvel médio), uma parte andou, ou ainda anda em veículos "populares" 1.0.

Temos mais ainda em comum, as roupas, os "discos", compartilhamos também o gosto da maioria dos filmes e seriados da TV norte-americana.

A maioria tem pelo menos um artigo internacional publicado e todos sonharam que isso representaria um marco em suas vidas... Muitos ainda possuem essa ilusão, embora alguns já comecem a entender a mentira por trás disso.

Muitos não possuem qualquer ideologia política, tão pouco são filiados nem mesmo a um sindicato. Alguns acreditam em mundos metafísicos criados para si próprios (incluindo um tipo de Jesus pessoal, que está lá "perdoando" as falhas e cuidando das necessidades materiais do seu querido adorador)... Felizmente (com muita alegria para dar ênfase), não há fundamentalistas de nenhuma religião entre nós! Há ainda alguns ateístas e outros marxistas. Todos vivem no berço da "Pequena Burguesia" (o meio universitário), onde tudo é "esforço e boa intenção" e ao mesmo tempo um não fazer nada além de cuidarmos para que haja segurança privada em nossas casas.

Além da segurança contra as "chagas da periferia", pagamos impostos e, depois disso, pagamos novamente escolas privadas para nossos filhos, contratamos seguros para automóveis, seguro de vida e fazemos nossos planos de saúde. Tudo nos assusta, a saúde pública, a falta de saneamento, as escolas públicas e os "marginais".
Chopp no shopping, cafezinho na padaria, às vezes cinema, muita TV, internet, livros e, aqueles mais nerds, tem o hábito adolescente de continuarem a ser fãs de bandas de rock/metal e ler histórias em quadrinhos.

Meus amigos da "Classe Média" são todos gente boa, pacatos e alguns até dizem para mim um adjetivo assim "do bem" (algo que eu detesto). Claro, todos negam o próprio rótulo "Classe Média" e repudiam mais ainda se alguém fala "Pequeno Burguês".

Eu li e ainda leio Kafka, Sartre, Camus e Saramago... Ninguém nota qdo estou fazendo isso e fico calado pelos cantos. Tenho uma inveja declarada desses homens e mais ainda de Marx, Engels, Lenin, João Amazonas, Fidel e Che. Vivo a me perguntar por que fiz da minha vida um fabuloso e dantesto dia branco... Com horas draconianas tão longas! Por estar aqui no meio do absurdo que é a vida e, pior ainda, imerso na vida humana, cheia da demência dos macacos que teimamos em dizer que não somos... ao comermos banana em frente aos espelhos.

Obrigações profissionais, obrigações de família e depois... chopp no shopping, cafezinho na padaria, às vezes cinema, muita TV, internet, bandas de rock, ler livros e histórias em quadrinhos.

Segue à vida... mas nada é para sempre!

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Efeito manada

Hoje é o último dia de 2009, também é meu aniversário. Nesse período, que compreende na universidade o que chamamos de “recesso de fim do ano”, já participei de encontros/ despedidas de amigos e companheiros de trabalho, assim como viajei ao litoral da Paraíba para rever parentes, grandes amigos, mergulhar na praia e beber muita cerveja gelada.

Entretanto, hoje em especial têm festa em todos lugares, nos canais de TV, estações de rádio e sites na internet. Eu decidi ficar em casa, ir contracorrente para variar.

Isso não é algo novo para mim, mas confesso que toda vez que faço tenho que ter certa “força de vontade”, porque o mais fácil a fazer é... O QUE TODO MUNDO FAZ! É o chamado “efeito manada”. Este é um típico assunto aqui para o Macaco Ômega, já que muitos simplesmente vão juntos, liderados por poucos, seguindo à massa.

Em “Deus – Um Delírio” Richard Dawkins fala sobre como mudamos no tempo, o “Zeitgeist” mutante (o espírito das épocas). O que quero pegar emprestado de Dawkins é o fato de que as mudanças são feitas, entre outros fatores, por líderes de todas as formas, os formadores de opinião. As massas os seguem prontamente, ou aos poucos.

Olhem só o que levou minha decisão de ficar em casa no réveillon? Pois é, aqui estou e não é fácil estar fora da massa, fazendo tudo que todos fazem, sentindo-se “normal”, aceito, participativo, sem pensar, sem complicar nada.

Eu não consigo fazer isso! Putz!

Registro apenas que em minha opinião a estrutura fundamental desse comportamento é genética pura. Ou seja, se sentimos uma força, em palavras mais suaves, um sentimento para seguirmos em determinada direção junto com outros, isso não foi aprendido, só pode ser genético.

Não quer dizer que o réveillon e o calendário ocidental sejam genéticos. Nem de longe! Estou escrevendo sobre fazermos algo espontaneamente, porque a maioria das pessoas faz. Óbvio, que isso foi benéfico para nossa sobrevivência nas savanas onde evoluímos. Muito além ainda, está em todo grupo de animais sociais. Para vivermos em grupo temos que afinar comportamentos coletivamente. Assim como uma colméia, ou um cupinzeiro, cada um de nós está imerso em uma coletividade.

Dos milhares de anos da origem do ser humano para cá, diferimos muito em ambiente cultural e tecnológico, embora nossas mentes continuem sendo pleistocênicas. Dessa forma, só posso compreender essa força, e toda a propaganda para estar com todos em uma festa de réveillon, como um subproduto de nossas origens como animais sociais.

É algo tão forte em nós, que, caso você não tenha notado, iniciei este texto com uma série de explicações para representar, defender a minha “normalidade” e meu lugar na manada.

Outro aspecto bastante interessante e relacionado ao efeito manada, são os papéis sociais que devemos cumprir no grupo. Um de meus amigos, Darlan de Oliveira Reis Júnior (professor do Departamento de História da Universidade Regional do Cariri – URCA/ CE), explicou-me certa vez que dependendo da profissão exercida, a sociedade tratará de lhe cobrar comportamentos e estilos de vida, na ilusão coletiva da existência dos estereótipos. Por exemplo, um professor de ecologia que ande com roupas de grife famosa e tenha um carro de luxo (categoria executiva urbana), provavelmente poderá ser confundido com um médico. Se as roupas forem ternos e gravatas então, advogado de sucesso (promotores inclusos), ou político. Papéis sociais, estereótipos, fantasias de grupo, modas e espírito de época, seguimos todos na manada humana.

Resolvi ficar em casa no réveillon! Estou feliz e espero que todas as pessoas também assim o fiquem hoje, seja lá se seguiram à manada ou não. Em cada canto desse mundo, nas fragilidades existenciais que nós somos, alguns momentos de paz para todos!

Abro uma cerveja gelada e com um sorriso saúdo a essa década de 2000, cujo último ano começará agora em 2010!!!

Como todos na manada fazem: Feliz Ano Novo!!!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Reflexo ômega


É aqui que nos encontramos todos os dias: no espelho! Eu e eu, você e você refletidos um para o outro até o fim de nossos dias. Se há par perfeito, ele sempre será composto por você e seu reflexo que nunca irá te deixar.

Muito bem, a natureza nos dotou de mecanismos de amor próprio para que prossigamos. Ou seja, a sua imagem é melhor vista por você mesmo. Se há imperfeições estruturais, ou causadas ao longo da vida, é você prioritariamente quem olha sempre com a devida aceitação. Outros se embriagam tantos de si próprios que se tornam hedonistas de carteirinha e olham para sim mesmos de uma forma que ninguém mais é capaz de ver.

Somos animais sociais e vivemos em grupos hierárquicos. Isso é muito mais do que milenar, pois é assim bem antes mesmo dos primatas surgirem na Terra. Estamos sempre distribuídos em grupos e subgrupos com líderes eleitos por nós mesmos. Sejam eles presentes em seu dia a dia, sejam eles ausentes e resultado de um efeito emergente de nossos cérebros (*).

Entre 6,5 bilhões de macacos humanos a maioria não se tornará um líder alfa, caso contrário seria um caos. Calma, muitas pessoas são assim mesmo, acham que são líderes natos, compram livros de auto-ajuda com protocolos para se tornarem líderes, ou melhorar sua liderança. Filósofos e livres pensadores exaltaram a importância dos líderes e criadores, Friedrich Nietzsche (1885) e Leonardo Boff (1998) são exemplos disso. O primeiro deixou claro que sua filosofia não era escrita para “animais de rebanho”, antes do super-homem, aquele que se desgarra do rebanho tornar-se-á um "leão". O segundo autor também fez metáforas usando animais, pessoas passivas foram representadas por uma "galinha", e os líderes e donos de seu destino eram “águias”.

Se a moda das metáforas pega entre nós símios, além das vaidades que transfiguram alguns em pavões, imaginem um mundo composto apenas por leões e águias?!

Quero deixar claro, minha intenção não é ir contra essa corrente de emancipação das massas, ou mesmo do despertar da alienação. Apenas quero enfocar o exagero que isso representa para a “psique coletiva”, quanto de depressão estamos promulgando no mundo, porque nem todos seremos líderes. Pior ainda é quando alguém possui essa oportunidade e não tem qualquer espírito de liderança... Aí os monstros distorcidos surgem contra a vontade da maioria, entre ditadores e patrões exploradores, pessoas no lugar errado são uma catástrofe.

De forma direta e clara o que não vemos por aí é um livro do tipo “Compreenda o macaco ômega que está dentro de nós”. Eis o objetivo deste post!

Antes de mais nada, vamos relembrar o que sabemos sobre grupos sociais hierárquicos. Desconheço um grupo de animais vertebrados sem hierarquia. Mesmo em cardumes de peixes, alguns machos e fêmeas assumem papéis de dominância por tamanho, maturidade e força. Anfíbios e os vários grupos de répteis também possuem essa estrutura hierárquica quando formam grupos.

Nas aves sociais vejamos como são as galinhas: “no topo da hierarquia, usualmente está um macho e na base uma fêmea ou um macho. Somente os machos de nível hierárquico alto acasalam ou possuem haréns, outros machos passam a viver à margem da comunidade do galinheiro, pois os outros machos não lhes permitem acasalar e nem tampouco as galinhas os aceitam”.

Alguma similaridade conosco?! Pois é!!!

A organização hierárquica de um grupo pode não ser evidente e para detectar isso são empregadas observações etológicas criteriosas. No livro do etologista brasileiro Antônio Souto (2000 – Etologia: princípios e reflexões, Editora UFPE), é apresentado uma forma fácil de se calcular a posição hierárquica de um indivíduo dentro de um grupo. O uso da equação de Coulon (1975 apud Souto 2000) onde é mensurada a proporção de comportamentos agonísticos (com vitórias e derrotas entre as disputas de machos e fêmeas). Esse tipo de procedimento se aplica melhor a animais como preás (Cavia porcellus) e quatis (Nasua nasua), sendo menos adequado para espécies com um número baixo de interações agonísticas como macacos sauín (Saguinus midas), ou o peixe-boi (Trichechus manatus).

A hierarquia social pode ser linear quando há uma seqüência de posições. Por exemplo, em pequenos grupos de preás domésticos cada macho possui uma posição social característica e, em um local com três machos e três fêmeas (**), encontramos um macho de primeira posição (ou o alfa), o de segunda posição (o beta) e o de terceira e última posição (o ômega) (Souto, 2000: 129). Quando há uma ausência dessa seqüência, assume-se que o grupo possui uma hierarquia social não-linear. Isso ocorre quando, por exemplo, em um grupo de oito indivíduos, o sexto pode ter dominância sobre o da quarta posição, embora submeta-se ao da quinta, que por sua vez, é subordinado ao da quarta posição (Souto, 2000: 130).

Se dividíssemos didaticamente o mundo dos animais sociais dessa forma, é claro que estamos mergulhados em grupos hierárquicos não-lineares. Mas quero deixar claro para você, os dois extremos estão presentes, os de posição alfa e os ômega!

A máxima sobre isso compreende: nem todo mundo é alfa, mas todo mundo se recusa a aceitar ser ômega.

Gostamos de escrever e falar aos pulmões: somos complexos! Isso implica uma diversidade de fatores históricos, sociais, políticos e econômicos, além dos presentes em nossa natureza humana.

Como exemplo disso, vou usar as probabilidades de “se dar bem” em minha profissão. Sou professor/ pesquisador universitário, em minha formação sobraram discursos, dicas e ensinamentos de como os grandes cientistas se tornaram evidentes mediante a produção de publicações científicas. Descobertas e hipóteses ousadas publicadas em ótimas revistas parecem ser para muitos um caminho certo de reconhecimento, ascensão social e sucesso profissional.

Doce ilusão! Claro que fazer currículo é importante para se obter um emprego. Mas, no exemplo específico, ter um título de doutor e cinco artigos publicados é muito mais importante do que ter apenas mestrado e mais de 100 publicações revolucionárias. Sem contar que salário, ascensão profissional e condições de trabalho em minha vida dependeram mais da luta de classes (negociações políticas e até greves) do que ficar absorto no meu laboratório.

Já tinha escrito no Macaco Alfa sobre isso, nossas vidas não são assim planejadas, onde você cumpre um protocolo de regras e atitudes e... Pluft! Você ascende da massa anônima e passa a ser um líder (alfa)! Tem que estar no lugar certo, com as condições favoráveis, muita sorte, esforço e talento. As pessoas não gostam de ler sobre isso, parece que o controle das coisas escapa pelos dedos mediante os eventos estocásticos que compõem a vida.

Há duas semanas atrás foi publicado um artigo na revista Science do colunista norte-americano Beryl Lieff Benderly: “Taken for granted: shocked, shocked! To find disppointment on Campus” (algo como “Tido como certo: chocante, chocante! Encontrar desapontamento no Campus”). Em mais de 4.000 instituições de pesquisa e ensino superior dos Estados Unidos as carreiras acadêmicas bem sucedidas estão diretamente relacionadas com o prestígio das maiores instituições. Ou seja, as instituições-elite como Havard proporcionam o ambiente e condições para os mais brilhantes, mas isso não é o mesmo para quem está em instituições menores.

Há o sério problema de se ensinar mitos como o do cientista brilhante que surge em qualquer lugar, porque a maioria dos acadêmicos não serão encarnações de Charles Darwin e muitos deles irão se frustrar por isso. Curioso, segundo Benderly (2009), parece que essa percepção vem mais rápido para quem está abaixo. Professores em instituições pequenas e sem prestígio tendem a se chocar com a realidade logo no início de suas carreiras. Uma adaptação a isso consiste em rever valores e investir em outras atividades como ensino, extensão, família, amigos e hobbies. Já os que estão em instituição no topo da cadeia alimentar, mas não conseguem se tornar estrelas acadêmicas, o choque parece vir perto da aposentadoria... e é devastador! Depressão e desilusão para quem se achava naturalmente um macaco alfa e se vê ômega... a imagem que eles nunca enxergaram no espelho.

Por falar em auto-imagem, quando penso a respeito, lembro de uma passagem em um livrinho do comentarista da CBN, Mauro Halfeld (2009: 41): “em diversas pesquisas, a minoria dos entrevistados diz ser um motorista abaixo da média, quando na verdade, 50% deles deveriam se classificar assim. Apenas 20% dos alunos assumem obter notas abaixo da média em sua turma”.
É o ponto no texto que sou repetitivo para fixar a principal idéia: ninguém quer ser ômega!

Bem, tranqüilizo a todos que uma posição hierárquica ômega é para poucos desafortunados. Não estou escrevendo sobre ricos e pobres, porque essa divisão das pessoas é artificial. Há liderança em comunidades pobres! Aliás, se bilhões de pessoas são exploradas isso é algo histórico, não tem nada haver com a natureza humana.

A posição ômega natural em nossos grupos é para poucos, assim como a alfa. Entre um e outro está a maioria, estamos todos nós. Ora liderando, ora obedecendo, um pouco alfa, um pouco ômega.

Ao olhar no espelho e reconhecer nossas fraquezas, ou a falta de habilidade em alguma tarefa específica é uma inspiração humana que chamamos de humildade. Aos que nunca fazem isso, aqueles que acham que seu lado ômega está muito bem disfarçado, restará a desilusão de saber que certas coisas na vida nós conseguimos através de outros e nunca apenas por uma vontade individualista. Nunca conseguimos fazer tudo sozinhos, há sempre algo que somos incapazes de fazer.

Acho que à procura da felicidade e paz cotidiana está justamente nessa harmonia entre alfa e ômega.

Se não há livros sobre os macacos ômegas, agora pelo menos existe este blog, onde assumimos nossas fraquezas, tornamos-nos fortes e felizes!!!


Referências
Benderly, BL., 2009 [clique] http://sciencecareers.sciencemag.org/career_magazine/previous_issues/articles/2009_11_13/caredit.a0900141 Sobre galinhas li no site: [clique] http://goads.tripod.com/caracter.htm
Boff, L., 1998. O despertar da águia. Editora Vozes.
Halfeld, M., 2009. Patrimônio: para você ganhar mais e viver melhor. Editora Globo. (***)
Nietsche, F., 1995 [1885]. Assim falou Zaratustra – Um livro para todos e para ninguém. [8 ed.] Editora Bertrand.
Souto, A., 2000. Etologia – Princípios e reflexões. Editora Universitária da UFPE.

(*) Não deixe de ler sobre isso no Macaco Alfa: [clique:] Discriminados: Ateus http://macacoalfa.opsblog.org/page/30/
(**) As fêmeas dos preás normalmente não possuem uma hierarquia clara, mas a figura das mesmas aumenta a competição entre os machos, evidenciando o status de cada um deles (Souto, 2000: 129).
(***) Eu leio de tudo um pouco, sobretudo quando tenho dúvidas e idéias.